Primeira Viagem Sola

Primeira parada: Chapada Diamantina

Primeira Viagem Sola

Primeira parada: Chapada Diamantina

20-02-2023 pré viagem

Estou com muita coisa na cabeça e resolvi escrever, apenas.
É segunda de Carnaval hoje. Umas coisas deram errado e eu estou com a impressão de que muitas coisas têm dado errado na minha vida ultimamente.
E eu me sinto cansada.
No trabalho, em relacionamentos amorosos, no dia a dia.
Parece que tenho feito escolhas erradas, que estou me distanciando da minha intuição.

Agora, por exemplo, estou com medo de viajar sozinha para a Bahia. Estou pensando nos sonhos que deixei em segundo plano.
Tudo parece entediante e estou longe da felicidade.
Vou tentar colocar a cabeça no lugar e me reorganizar para ir atrás do que eu realmente quero.

Estou levando uns tapas e sacodes da vida.

27-02-2023 - início de viagem

Tô na Bahia! Mais precisamente na rodoviária de Salvador, esperando o ônibus com destino a Palmeiras daqui a 2 horas.
Escrevo de uma mesinha do Subway, onde comprei um sanduíche para ser minha janta, e a atendente perguntou “mais alguma coisa, SENHOR?”.
Ri por dentro, mas não a corrijo; pelo menos meu disfarce está funcionando.

Sendo minha primeira viagem sola, eu não queria chamar atenção, e meu aerolook — e agora também rodolook — foi escolhido a dedo: uma calça larga, uma regata meio muscle tee e um boné para esconder meu cabelo curtíssimo e descolorido.
Como eu disse, o objetivo é passar despercebida, principalmente aos olhares masculinos maldosos, que, na minha opinião, são o maior perigo que posso ter nessa jornada.

Tive uma sensação interessante mais cedo. Enquanto puxava minha mala vermelha de rodinhas pelos corredores longos do aeroporto de Salvador, eu pensava de forma alternada: “meu deuss, eu vim mesmo! Sozinha! Eu disse que vinha e eu me trouxe!” e “puta que pariu, que ideia foi essa que tive? Agora não dá pra voltar, eu quero voltar!”.

Mas confesso que o primeiro pensamento me fez abrir um sorriso de canto de boca enquanto me sentia orgulhosa de estar saindo da minha inércia.
Ainda não sei o que vai acontecer nessa viagem, nem cheguei no meu primeiro destino, mas deixo aqui registradas as minhas atuais expectativas: 

    • quero me sentir melhor comigo mesma, autossuficiente e com vontade de viver mais e mais

    • quero me sentir mais leve ao conhecer novas pessoas

    • quero me deixar ser levada pela espontaneidade

    • quero viver o máximo de experiências novas, diferentes e únicas

Tudo que eu posso sentir, para me sentir viva e saber que ainda há muito para descobrir.
Tipo um salto de bungee jump.

05-03-2023 - metade da viagem

Hoje fui embora do Vale do Capão. Que lugar especial!

Cheguei com receio, debaixo de chuva, sem sinal de telefone, enquanto o vilarejo todo parecia ainda estar dormindo.
No meio da rua de terra do centrinho, olhei ao redor em busca da minha pousada, não a vi. Um cachorro veio em minha direção e andamos juntos até uma marquise. Respirei fundo, meio nervosa por me sentir perdida em um lugar desconhecido, e fiz cafuné no doguinho por alguns segundos. Voltei a olhar o Maps em busca de uma pista de onde era meu endereço.

Olhei mais atentamente para os nomes das placas das pousadas à minha vista; nenhuma delas era a minha.
Abaixei os olhos frustrada para o cachorro, em busca de algum palpite.
Olhei para trás: lá estava ela.

A porta atrás de mim era a porta que eu precisava. Peguei a chave escondida que a proprietária havia me mostrado e me despedi dele agradecendo. A primeira despedida de muitas dos próximos dias.

Como resolvi não me estressar durante o planejamento dessa viagem, eu não tinha muitas atrações em mente ainda. Comecei contactando a agência de guias registrados na região, andei para conhecer a cidadezinha e o resto se fez no caminho.

Abri meu coração e mente para conhecer novas pessoas e me permiti experiências inéditas. Venci a vergonha ao convidar um casal de israelenses para a trilha comigo, já que eu não queria ir sozinha ainda naquele momento.
Fumei ganjah com meus guias, plantada no quintal da casa deles.
Andei os 4 dias na garupa de uma moto, subi cachoeiras pelo leito do rio e conheci mais um israelense e um inglês (cuja viagem era a de número 3 ao Capão) enquanto “almojantava” o que parecia a comida mais reconfortante que já comi na vida no restaurante da dona Beli após uma longa trilha.

Experimentei pela primeira vez carneiro, mangaba e maracujá do mato. Comi a famosa pizza da Pizzaria Capão Grande (histórica por ter apenas 3 sabores: salgada, doce e vegana), tomei cerveja no Flamboyam e vi show no coreto da vila.

Ouvi histórias da chapada e dos locais, entendi e me surpreendi com o quanto a comunidade é unida. Me emocionei com a dedicação e coragem dos voluntários brigadistas de incêndio em proteger e preservar a natureza.
O que chamamos de Parque da Chapada Diamantina, para eles, é casa.

Superei o cansaço físico das trilhas e passei por trechos que exigiam coragem, e foi recompensador. Como boa carioca, xinguei muito quando vi paisagens deslumbrantes, quando subimos no Gerais do Vieira e avistei de um lado o Vale do Pati e, do outro, o Vale do Capão.

Me debrucei em um penhasco de 380 metros para ver a água que nasce do alto virar fumaça antes mesmo de tocar o chão: Cachoeira da Fumaça.
E isso tudo só foi possível porque abri meu coração.

Ao me deliciar pelos produtos locais: mel, cookies, granola, etc etc, quis levar um pouco de tudo na mala, para tentar mostrar, mesmo que de forma simbólica, àqueles que amo, como esse é um lugar especial.

No fundo, eu sei que ninguém pode saborear por mim o que eu vivi; no bom e no ruim, a vida é experienciada individualmente em um coletivo. Eu tento apenas descrever o gosto que isso tudo teve para mim.

De cabeça fria e coração quente, me despedi do Vale do Capão com lágrimas nos olhos.
O lugar que se tornou um ponto de inflexão, mudando para positiva a curvatura da minha vida.
Chapada Diamantina, eu vou voltar.

Essa história continua na parte 2.

Antes de seguir para a próxima parada, deixa eu saber o que você achou enviando uma mensagem ali embaixo 🙂 

Te vejo no próximo rolé!

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