Viagens são complexas. A menos que as façamos de forma automática, viagens exigem esforço para além de carregar a mala para cima e para baixo.
Primeiro, o planejamento, se existir. O que levar na bagagem pode tomar uma energia mental considerável. Mas, na minha opinião, o maior esforço de uma viagem, principalmente quando se está sozinha, pode estar nas coisas mais triviais: onde comer, como chegar, como me manter segura, será que vou conhecer alguém legal?
(Spoiler: sempre vai.)
E há também as perguntas que brotam do nada na mente, como uma conversa interna de mim comigo mesma durante qualquer caminhada na rua: quem construiu isso? Será que sempre foi assim? O que será que significa esse monumento? Como será que a comida chega nesse vilarejo?
Permaneço sem a resposta de metade delas. A outra metade o ChatGPT pode me ajudar, ou descubro fazendo um tour guiado, ou conversando com o garçom do restaurante, ou com outra viajante que já está morando lá há três meses.
Posso comparar andar sozinha em um lugar novo com uma espécie de meditação ativa: prestar atenção em tudo o que se passa ao redor e observar cada detalhe me faz estar 100% conectada ao momento presente.
Enquanto isso, ao se viajar em companhia, outros “distúrbios” podem aparecer no caminho: “o que vamos fazer em seguida?” ou conversas que abrem espaço para distração. Não é pior nem melhor, só é diferente.
É engraçada a sensação que tive no Atacama, quando fiquei no mesmo hostel por nove dias. Havia meninas que chegaram antes de mim e que pareciam já saber tudo da cidade: os melhores restaurantes, o point do karaokê, as informações culturais da região e os passeios preferidos.
Durante a minha hospedagem, algumas outras hóspedes passaram pelo meu quarto, chegaram e partiram antes de mim.
Ao final da minha estadia, eu já me sentia uma veterana. E cada nova hóspede que aparecia com uma pergunta, eu prontamente tentava ajudar com as informações que coletei durante o tempo em que estive ali.
Experiência gera conhecimento, que, por sua vez, pode ser compartilhado. No meu último dia, juntei as meninas que conheci ao longo da viagem e marquei minha noite de despedida.
E como eu consegui juntar tanta gente em tão pouco tempo?
Como eu me tornara uma veterana em apenas nove dias?
É meio doido, mas viagens têm esse poder.
Como uma grande admiradora da física, tenho a teoria de que brincar de viajar pode gerar pequenas deformações nessa malha de espaço e tempo em que vivemos. Deformações no espaço, no tempo e em quem se é.
Viagens no tempo exigem esforço, mas a recompensa vale a pena.